"Porque somos contra a EBSERH ": carta aos conselheiros universitários da UFBA
Salvador, 28 de setembro de 2012
Das entidades
abaixo assinadas
Ao Conselho
Universitário da UFBA
Os
Hospitais Universitários (HU) brasileiros vivenciam uma crise estrutural, a
partir dos anos 1970. Dentre os aspectos estruturais da crise dos HUs,
ressalte-se o conflito de interesses entre as categorias e corporações
profissionais, bem como as divergências quanto aos modelos pedagógicos e
operacionais da prática assistencial, de ensino e pesquisa, bem como a
fragmentação do poder institucional e concepção ideológica divergente quanto ao
papel social dos HUs.
Desde a
década de 1980 que a análise da situação do nosso Hospital Universitário
Professor Edgard Santos (HUPES) apontava as razões que conduziram para o estado
de crise permanente do nosso e dos demais hospitais universitários brasileiros.
Dentre estas, destacam-se: O agravamento da crise financeira; a incorporação
interna de lógicas de mercado; modelo de gestão e administração anacrônicas;
resistências de núcleos de poder à modernização da gestão e sub-remuneração e
financiamento através de convênios; indefinição do perfil assistencial;
desarticulação com o Sistema Único de Saúde (SUS); insuficiente autonomia e
gestão não profissional; indefinição na relação com o setor privado;
incorporação de tecnologias e serviços sem critérios; baixa qualidade na
prestação de serviços e nas atividades acadêmicas (Plano Diretor do HUPES,
1986), além de autonomização de serviços em “institutos”, “fundações” etc. e
escassez de pessoas do quadro permanente para funções assistenciais, de ensino
e pesquisa.
Ao
longo de décadas, nenhuma formulação de política pelo governo federal e nenhum
projeto foi apresentado e ou implantado visando a superação dessa crise
estrutural.
A
partir das medidas de reforma do Aparelho de Estado brasileiro, iniciadas em
1995,e acentuadas na última década, as medidas assumidas para enfrentar o
estado de crise permanente na produção de serviços de saúde se pautaram no
repasse da responsabilidade de gestão, contratação e produção de serviços de
saúde ao setor privado. Os modelos são muitos e todos testados, apontando que
seus resultados são vantajosos para a lógica privada, mas não para a
consolidação do SUS. São elas: Organizações sociais, formas diversas de
tercerização (da contratação de mão de obra; da gestão; da produção de serviços
meios, etc.); OSCIP etc. Nessa mesma direção é que se cria a Empresa Brasileira
de Serviços Hospitalares pelo governo federal, em dezembro de 2011.
A EBSERH é o tipo de solução dentro da lógica
neoliberal, através de um arcabouço institucional e jurídico para satisfazer ao
mercado e as “crises” econômicas do modo de produção capitalista.
A
solução para a crise dos HUs inclui:
· aplicação dos princípios constitucionais, com
responsabilidade pública na prestação das ações e serviços de saúde;
·
financiamento integral pelo ministério da Educação e pelo
SUS, dado a sua finalidade específica;
·
modelo de gestão político-técnico profissional, com
autonomia, e com articulação entre os
serviços;
·
processo de trabalho articulado e contraposto à autonomia
absoluta de alguns profissionais versus
o controle rígido de outras categorias;
·
práticas assistenciais geridas de modo integrado para
atender ao perfil assistencial e aos resultados propostos;
·
definição clara do perfil assistencial, articulado com sua
finalidade e atendendo aos interesses do SUS local e regional;
·
incorporação tecnológica a partir do perfil assistencial
definido;
·
quadro técnico-profissional bem estruturado, estável e
qualificado;
·
modelos de prática assistencial e de ensino integradas.
As
sim, as entidades que assinam esta carta
vêm apresentar seus argumentos contrários à decisão sobre o repasse
da gestão
dos Hospitais Universitários
do Brasil e, em particular
do complexo Hospital Universitário
Prof. Edgar Santos à EBSERH.
1) A
EBSERH é privatização de serviços públicos de saúde e do conhecimento produzido
nos HUs
Ainda
que genericamente o termo privatização designe as iniciativas que ampliam o
papel do mercado em áreas anteriormente consideradas privativas do Estado, isto
inclui não apenas a venda de bens e serviços de propriedade ou de prerrogativa
exclusiva do Estado, mas, também, a liberalização de serviços até então de sua
responsabilidade, como a educação, saúde e meio ambiente. Isso se faz pela
desregulamentação e estabelecimento de contratos de gestão de serviços públicos
por provedores privados (Leher, 2003). Assim sendo, e tendo como mediação da
sua relação com a universidade o contrato de gestão, típico instrumento que
atende aos interesses produtivistas do setor privado, este modelo de gestão
ameaça os direitos sociais e o reconhecimento da saúde como direito de todos os
brasileiros e DEVER do Estado, bem como contraria a Legislação do Sistema Único
de Saúde (SUS).
2) A
EBSERH desrespeita e reduz a autonomia universitária
Os hospitais
universitários são estabelecimentos de ensino vinculados às universidades e
responsáveis por formar profissionais de saúde, desenvolver conhecimentos e
tecnologias e prestar serviços de saúde à população, regidos pelos princípios
da reciprocidade e solidariedade. Nesse sentido, o repasse da gestão dos
HUs para a EBSERH, com
caráter jurídico do
direito
privado,
constitui-se um desrespeito à autonomia universitária, princípio garantido no
artigo 207 da Constituição. Além disso, a EBSERH é constituída de três
conselhos, onde apenas o Conselho Administrativo é deliberativo e no qual, das
nove cadeiras que o compõe, sete são indicadas pelo governo federal. Outro
ponto importante é o a opção para a gestão local pela EBSERH, através de uma
filial. Dentro da gestão empresarial, a filial é totalmente subordinada às
diretrizes e definições da sua matriz, de modo que a filial estabelecida no
hospital universitário não terá autonomia para atuar no HU de acordo com as
demandas e peculiaridades locais. Essa perda da autonomia, acentuada ao longo
de décadas pela opção política de subfinanciamento dos HUs pelo governo, trará
consequências negativas para o desenvolvimento das atividades de ensino,
pesquisa e extensão, além da prestação de serviços. Com a gestão do complexo HUPES pela EBSERH desvincula-se, na prática,
estes da UFBA.
Dado que a autonomia universitária está cada vez mais
reduzida, basta analisar atentamente o modo e os critérios de avaliação dos
cursos de graduação e pós-graduação e o que aconteceu com o financiamento da
pesquisa que foi retirado das universidades e atribuído a outras instâncias
(com o dinheiro que deveria ser destinado para as universidades), o que faltava
solapar da autonomia universitária? O controle da produção de serviços de alta
complexidade e da produção de tecnologias médicas e de saúde. A EBSERH faz
isso.
3) A EBSERH ameaça o caráter público
dos
serviços
de educação
e saúde
Pautar
o lucro dentro do serviço de saúde é deveras danoso à população. Não existe
definição concreta de como o lucro que pode ser obtido pela EBSERH será
aplicado. A forma de financiamento da empresa é flexível. No artigo 8o da Lei que cria a EBSERH têm-se
garantidas diversas formas de obter capital, admitindo inclusive financiamento
por outras fontes e aplicações financeiras, as quais são formas de obtenção de
lucro.
Não
existe perspectiva de que o financiamento da União para a saúde aumente, o que
nos leva a cogitar que a empresa se voltará para as outras formas de obtenção
de recursos financeiros, que estão totalmente inseridas na lógica do mercado e
que exigirão uma contrapartida que trará danos à função social do HUPES. Há,
por exemplo, a possibilidade de realizar contratos e convênios com entidades
nacionais e internacionais, incluindo as privadas, que podem ser parcerias
preferenciais para uma empresa que deve manter seu equilíbrio
econômico-financeiro para subsistir no mercado.
Quanto
ao campo de pesquisa em que se constituem os HUs, este preocupa muito por causa
do interesse do complexo industrial da saúde, em particular da indústria
farmacêutica em se consolidar de vez dentro dos Hospitais, onde estão uma vasta
quantidade e diversidade de “material humano”. O foco das pesquisas pode ser
direcionado para objetivos que não de cunho social, pois essas, quando voltadas para atender às demandas da
população, apesar de sua importância, não tem a perspectiva mercadológica.
A
EBSERH cria espaços de valorização do capital, com possibilidade de obtenção de
outros recursos (que não o financiamento público). A obtenção de lucro líquido
pela empresa permite que esta venda serviços, produtos, tecnologias etc. e a
impulsiona para a captação de outros recursos para as atividades de ensino,
assistência, pesquisa e extensão. Além disso, o ressarcimento pela saúde
suplementar do atendimento prestado aos usuários do SUS com plano de saúde pode
ser utilizado livremente pela empresa.
4) A EBSERH é terceirização dos serviços de
saúde e educação
Quando se argumenta
que a implantação da EBSERH é uma terceirização dos serviços de saúde e
educação, considera-se o princípio de que as atividades caracterizadas como
“fim” do Estado, tais como a saúde e o ensino não podem ter sua gestão,
equipamentos e pessoal transferidos para uma instituição privada. A
constituição só permite que o Estado contrate tais instituições para
desenvolverem atividades “meio”, como limpeza, vigilância ou determinados
serviços técnicos da área de saúde (exames, consultas) com caráter
complementar.
5) A
EBSERH contribui para o desmonte da organização dos trabalhadores empregados
pelo Estado, com a flexibilização dos
vínculos de
trabalho e extinção progressiva do
concurso público
A
principal justificativa do governo para a criação da empresa é a regularização
dos mais de 26.500 funcionários terceirizados dentro dos hospitais. Dentro da
lei está garantida a existência, por dois anos, do contrato precário feito
pelas Fundações de Apoio. Outrossim, o problema dos atuais contratados não será
resolvido pela EBSERH e só o será pelas próprias universidades, sem que nenhuma
proposição tenha sido sequer formulada. No entanto, a contratação pela EBSERH
dos futuros concursados, exclusivamente pelo regime da CLT, resultará na
extinção da carreira do servidor técnico-administrativo dos HUs.
Outro
problema é o vinculo de trabalho via a CLT, que na prática impõe a rotatividade dos profissionais de saúde, típica
do setor
privado,
comprometendo
a continuidade
e qualidade
do atendimento, bem como as demais atribuições de
ensino, pesquisa e extensão dos HUs.
6) A EBSERH significa desrespeito ao
controle
social e à democracia universitária
Com a
gestão via EBSERH, o complexo HUPES estará subordinado ao regimento da empresa,
resultando na perda de espaços e mecanismos para uma gestão democrática, como o
conselho gestor, e a consulta à comunidade na escolha do gestor do hospital.
Não existirá controle social dentro desta empresa, o que desrespeita as
diretrizes e princípios do Sistema Único de Saúde.
O desrespeito ao
controle social
é manifesto ao se desconsiderar
a deliberação da 14a Conferência Nacional de
Saúde,
maior instância do controle social no
SUS,
realizada
entre
30 de
novembro
e 04 de dezembro
de 2011:
“Rejeitar a criação da
Empresa Brasileira
de serviços Hospitalares
(EBSERH), impedindo a terceirização dos
hospitais
universitários e de
ensino federais”
(Relatório da 14a CNS,
Ministério
da Saúde,
2012).
Por
fim, os signatários desejam também manifestar seu descontentamento com o modo
antidemocrático como as decisões sobre a adesão à EBSERH estão sendo tomadas
dentro e fora da UFBA.
Por
duas vezes o tema da EBSERH foi pautado no CONSUNI, mas não foi discutido. Após
a greve, foram programadas apenas duas reuniões deste Conselho sobre o assunto,
uma para discussão e outra para decisão.
Lideranças
dos três segmentos da UFBA, estudantes, funcionários técnico-administrativos e
professores, tem reivindicado, sem sucesso, à Reitora e sua equipe a realização
de uma agenda de debates sobre o tema.
Seria
possível supor que a discussão até o momento tenha dado oportunidade de
participação a todos os interessados, considerando-se que representantes das
diversas Unidades da UFBA têm assento no CONSUNI, e que esses representantes
devem ter discutido o tema em suas respectivas Congregações. Esse ciclo
democrático virtuoso deve ter se iniciado em cada Unidade com a discussão dos
representantes nas Congregações com seus representados.
No
entanto, quem está acompanhando o processo de tomada de decisão sobre esse tema
tão fundamental para a UFBA pode observar que não houve discussão ou esta foi
insuficiente em várias Unidades e Departamentos. Além disso, as decisões em
várias Congregações têm sido tomadas com base em argumentações avessas a um
ambiente de liberdade, ao se colocar que se deve aprovar a adesão porque não há
alternativa. Como caracterizar um processo de decisão como livre e democrático,
se, de início, a maioria dos debatedores defendem que só há uma decisão
possível? Um agravante é que esta afirmativa categórica tem sido feita por
membros dessas instâncias decisórias, muitos dos quais não tiveram acesso às
informações sobre o tema. Outro agravante é que membros de Congregações de
unidades de ensino fora da área da saúde mostram-se receosos de votar contrariamente
aos votos daquelas da área da saúde, pressupondo, equivocadamente, que estas
Unidades discutiram o tema mais detalhadamente e com maior propriedade.
Em
várias unidades, as votações nas Congregações registram um número elevado de
abstenções, que têm sido justificadas pela ausência completa de discussão nos
Departamentos.
As evidências apontadas acima colocam em dúvida o caráter democrático
das decisões até agora tomadas pelas instâncias decisórias da UFBA acerca da
adesão à EBSERH. Essa situação é preocupante e compromete a legitimidade das
decisões tomadas.
Assinam esta carta:
DCE – Diretório Central dos Estudantes da UFBA
Comissão de Mobilização dos Docentes da UFBA
ASSUFBA Sindicato
APG- UFBA - Associação de Pós-Graduandos da UFBA
FAS – Fórum Acadêmico de Saúde da UFBA
Centro Acadêmico da Escola de Música
Centro Acadêmico de Biologia
Centro Acadêmico de Biotecnologia
Centro Acadêmico de Ciências Sociais
Centro Acadêmico de História Luiza Mahin
Centro Acadêmico Ruy Barbosa
Centro Acadêmico de Serviço Social
Diretório Acadêmico de Ciências Biológicas (Vitória da Conquista)
Diretório Acadêmico de Educação Física
Diretório Acadêmico de Enfermagem
Diretório Acadêmico de Engenharia Sanitária e Ambiental
Diretório Acadêmico de Fisioterapia
Diretório Acadêmico de Fonoaudiologia
Diretório Acadêmico de Medicina
Diretório Acadêmico de Nutrição
Diretório Acadêmico de Psicologia
CONEP - Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia
ENEFAR - Executiva Nacional dos Estudantes de Farmácia
ExNEEF - Executiva Nacional de Estudantes de Educação Física
DENEM - Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina
ENEN - Executiva Nacional dos Estudantes de Nutrição
ABEn-BA - Associação Brasileira de Enfermagem Seção Bahia
SINPSI-Ba - Sindicato das (os) Psicólogas no Estado da Bahia









